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Chamada Perdida

junho 8, 2010

Entrou no bar, pediu apenas uma água. Colocou o celular sobre o balcão. Olhava-o fixamente após cada gole como se esperasse uma chamada. Ela não chegava. Conferia se não estava no silencioso e olhava para as pessoas a sua volta.

Um homem com um chapéu de palha estava sentado na banqueta a sua esquerda. Calado, virava pequenos copos de tempos em tempos. Duas mulheres, meia idade, cobertas de bijoterias conversavam como adolescentes na mesa central do bar bebericando suas bebidas com azeitonas. Um painel com fotos na parede dos fundos chamou sua atenção. Chegou perto a procura de rostos conhecidos. Amigos queridos estavam alí. Ela estava alí. Ele ao seu lado.

Lembrou-se daquela noite. Bebou mais um gole de sua água. A primeira de muitas noites juntos, oficialmente. Voltou seu olhar para a mesa das mulheres e desejou que estivesse vazia. As risadas vindas de lá a incomodavam. O lugar, aquela branca e ordinária mesa de bar era para ela um santuário, agora profanado. A música que tocava ao fundo era outra. Tudo parecia errado, tudo lembrava aquela foto, no entanto, nada era igual, exceto ela. Ele não estava mais ao seu lado. Seus acentos estavam ocupados e a música que tocava estava baixa e sem graça. Tudo ela queria consertar. Começou pela música, pediu para trocar e aumentar. As mulheres, elas iriam embora, eventualmente. Ele, iria ligar.  Ouvindo a música certa, voltou ao painel. Agora se sentia mais próxima  do momento da foto. O momento do pedido.

Lembrou-se  do semblante nervoso do seu amado. Das mãos suadas sendo esfregadas na calça, sobre o joelho. O olhar perdido do futuro namorado e o pedido desajeitado. Lembrou-se do beijo, a resposta mais que aguardada.

Enquanto isso, do outro lado da rua estava o namorado. Perguntando-se se aguentaria viver separado daquela que foi a sua melhor namorada. Atravessando a rua resolveu ligar. O telefone chamou. Um homem atendeu. Ele ouviu a música que tocava e gargalhadas ao fundo. Achou que ela estava feliz com outro, ouvindo a música que era só dos dois. Sentou-se na calçada em frente ao bar e começou a chorar.

Ele nunca chegou a entrar. Ela, lá dentro, esperou a música acabar e voltou triste para o balcão. O homem ao lado caíra no sono e não havia nenhuma chamada perdida.

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