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A Viagem Que Não Vou Esquecer

julho 9, 2009

História de Gaveta : Escrita a caminho de BH, em algum dia da Semana Santa.

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Toda vez que viajo de ônibus é a mesma história. Minha mente transporta-me a um fim de tarde de 2007. Não sei precisar melhor a data.

Estou num pássaro verde agora, tenho mais esperanças. Naquele dia, o pássaro era “Marron”. Viajava de Campinas a São José dos Campos.

Lembro-me da minha felicidade quando consegui chegar à rodoviária a tempo de pegar o ônibus das 17:30h. Chegaria meia hora mais cedo que planejado. Sentei-me no fundo do ônibus.  Aquele dia queria ficar isolada.

Pouco depois de passar por Atibaia, ouvi um estouro muito forte. Não conhecia o barulho. Logo, pessoas gritaram praticamente em coro: “Não pára, motorista, não pára.”

Passados alguns quilômetros, o motorista parou.

Havia um furo pequeno em um vidro e uma janela quebrada do outro lado do ônibus.  Foi um tiro. Felizmente não houve feridos.

A história não termina aqui, infelizmente.

Retornamos à delegacia mais próxima. No caminho, três homens pediram para descer num trevo perto de Atibaia. Melhor não negar. Um policial lindo fez a perícia e concluiu: “A arma foi disparada do interior do veículo. A cápsula da bala está aqui.”

A culpa foi em segundos para os homens que “abandonaram a embarcação”; Negros, mal vestidos e cheirando a álcool. “Eles podem ter disparado acidentalmente” já que, para nossa felicidade, ninguém gritou  “Isso é um assalto. Abram as bolsas e passem pra cá celulares, jóias e dinheiro.”

Na delegacia conversei com a mulher que estava sentada junto à janela quebrada. Provavelmente o projétil ricocheteou ali e saiu pela janela com o furo.

-Menina, eu senti a bala passando atrás da minha cabeça. Deu para sentir o ventinho que fez, eu podia estar morta agora. Imagina. Se eu estivesse um pouquinho mais para trás. Nossa, que tragédia. Menina, num quero nem imaginar. Ainda bem que num aconteceu nada né menina?

– É. Graças a Deus. Respondi meio assustada, meio distraída.

– Sabe menina, a minha cabeça agora tá cheia de caco de vidro. Tá coçando, mas eu num posso coçar senão corta tudo né?  Menina, parecia que eu tava sentindo que ia acontecer alguma coisa hoje.   Acordei com a cabeça coçando. Até falei com a menina que trabalha comigo hoje pela manhã: “Nossa, parece que meu cabelo tá cheio de areia.”  Será que foi premonição?

Não respondi à pergunta. Aquela senhora já estava me irritando com aquele “menina” repetitivo. Eu só queria chegar logo.

Podia acabar ali, mas tive que ouvir ela dando seu testemunho para mais umas cinco pessoas.

Saldo final da viagem: Um momento de pânico. Uma gorda velha chata que não parava de gabar sua habilidade premonitiva e reclamar da cabeça coçando. Duas horas de atraso. Um trauma do trecho.  Uma história para contar e boas gargalhadas ao imaginar a gorda tirando os cacos de vidro da cabeça, quem sabe, com um aspirador de pó.

Quanto à viagem de agora, minhas esperanças foram reduzidas. Acabou de entrar uma menininha. Mila o nome dela. Não pára de falar um minuto. A vózinha do meu lado, surpreendentemente “high-tech” joga no seu celular, produzindo barulhinhos agudos e repetitivos. Atrás de mim tem um senhor soprando (aquele ronco que mais parece um assobio) e a estrada até BH é horrorosa.

Se nessa viagem eu construir memórias piores, não há mais riscos. As daquele fim de tarde num pássaro “Marron” já foram devidamente documentadas.

Imagino agora, a mesma história contada pela gorda. Espero que na versão dela não conste duendes.

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