Archive for the ‘Contos e Crônicas’ Category

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Ser Feliz no Trabalho

outubro 16, 2011

Na preguicinha de dia de chuva, resolvemos por não fazer almoço.

Enquanto comíamos observamos um determinado garçom. Fazia malabarismo entre as mesas e lotava as bandejas de copos vazios e latas de coca-cola. Sempre com muita pressa, sempre com muita euforia. Não deu muito tempo o caro colega, com a bandeja tão cheia que mal podia ver adiante derrubou vários dos vidros entulhados sobre ela.

Revoltado, limpou o chão catando caco por caco e gastou preciosos minutos ali naquele processo de amenizar o desastre. Chão limpo, voltou a lotar as bandejas, ainda com pressa e agora com raiva.

– Logo hoje eu tive que derrubar a bandeja. Comentou enquanto recolhia meu prato. Eu, para a amenizar a situação, ou não, respondi.

-Ah. Nem Liga, não foi a primeira vez que isso aconteceu e aposto que não será a última.

Ele para completar a conversa narrou a vez que estava entrando na cozinha com uma pilha tão gigantesca de pratos que não conseguiu ver um desnível no chão. Caiu, junto com todos os pratos entre o salão e a cozinha.

Eu para completar então respondi. “O importante é não se machucar”.

E o garçom mais que depressa falou: “Machucado ou não ele mandam vir trabalhar no dia seguinte do mesmo jeito, num importa se tá todo quebrado em casa”.

Não ousei mais abrir a minha boca, mas guardava dentro de mim a certeza que enquanto não se é feliz no trabalho, nem o simples serviço de carregar pratos será bem feito.

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Mulher Guerreira

agosto 23, 2011

O Cortador de unhas e o alicate já te acompanham para o Box. Retirar a cutícula? Nada disso, só os fiapinhos que brotam nos cantos.  A Lixa vai dentro da bolsa para ser usada em trânsito, preferencialmente quando se está caminhando, ou correndo,  em alguns casos.

A Base é passada em horário de almoço, com um site de notícias aberto no tablet que você acessa já da cozinha. Ele foi eleito seu companheiro de refeições. Com a base passada, tudo que pode fazer agora é apertar, com muito cuidado, os botões do microondas que preparará a última das 10 lasanhas que você comprou no dia 5, e rolar a página de notícias. Lembrando que as lasanhas foram compradas para quando fossem extremamente necessárias, ou seja,  quando seu horário de almoço fosse extremamente reduzido.  Dez minutos e pronto, base seca e comida na mesa. Várias garfadas, escova no dente e rua.

O esmalte? Vai ter que ficar para a noite. A cor é escolhida pela memória, ou já cansou de pensar em escolher e usa sempre o mesmo vermelho de secagem rápida e camada única, se possível. Chega em casa cansada, toma o banho mais que merecido já sonhando com a cama.

Não fosse o alicate ali no Box, teria se esquecido das unhas. Já tarde da noite, pega o vidrinho de esmalte, o palito e o removedor, se ajeita na cama com travesseiros nas costas, mesinha do notebook no colo e começa a esmaltação. Quando termina de pintar, seus olhos já se fecham, mas você se sente uma vitoriosa, afinal fez mil e uma coisas no seu dia e ainda conseguiu fazer as unhas. Isso sim que é mulher guerreira. Com todo o cuidado, troca a mesinha por um dos travesseiros e dorme imóvel com as mãos sobre ele. Quando o despertador toca, confere se as unhas sobreviveram. “Ufa, essa noite elas aguentaram”. Você sai de casa correndo, mas feliz, afinal, não vai ter que comer lasanha mais uma vez.

Pior que lasanha, querida, vai ser engolir a chefe quando ela disser:
“Já vi que ontem você ficou só na folga né? Deu tempo até de fazer as unhas…”

Ocupada sem perder a elegância!!

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Adolescência Tardia

agosto 21, 2011

Chegar em casa, se trancar no quarto, colocar o fone de ouvido no alto e se jogar na cama é algo meio tardio para mim, que tenho 22 anos.  Sentar numa cadeira de um cursinho durante toda uma tarde também o é.  Um breve momento de adolescência tardia não deve fazer mal algum.

Vou aproveitar o momento.  Amanhã as aulas serão outras, as cadeiras também. Vou voltar a sentir saudades do meu tempo de ensino médio, do tempo que tinha apenas uma prova difícil para me preocupar, o vestibular. Agora tenho uma dúzia de provas por semestre, todas difíceis.

De volta à cadeira do “cursinho” pude comparar o quanto eu cresci desde que estava de fato alí para estudar. Pude observar o quanto a universidade e a idade me transformaram e o quão falha está a educação.  Apesar disso, tenho que parabenizar o ministério da educação pelo ENEM. A nova proposta de prova está infinitamente melhor e busca privilegiar o potencial do aluno, deixando um pouco de lado a decoreba de alguns vestibulares e dando importância a habilidades mais úteis para todo o restante da vida do aluno. Busca enxergar a capacidade de assimilação de conteúdos diversos e interligação dos temas e realmente tem conseguido. Muito bacana, não é?

Quando passei da cadeira para frente da turma senti aquele frio na barriga, todo o nervosismo da primeira vez dando uma aula de verdade, mas os alunos estavam mesmo interessados e isso me motivou. Foi uma delícia dar aula para eles. Senti como se aquele lugar me pertencesse e que estávamos destinados um para o outro. Um pensamento da adolescente tardia? Pode ser, mas é assim que sinto e ninguém pode mudar a minha cabeça de 17 anos que acabou de ter a certeza do que quer.

Aceito maças, mas prefiro uva.

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De porcelana

agosto 18, 2011

A poeira sobre a minha pele incomoda. Muito tempo guardada no armário não fez bem para a minha alva pele. Já comecei a descascar. Preciso de mais que um banho. Talvez uma nova pintura.  Quem sabe assim fico mais satisfeita, com a coragem renovada. Preciso encontrar a minha nova dona. Voltar a ser amada.

Preciso voltar a sentir os braços quentinhos a me abraçar. Enquanto isso eu espero. Com a mesma esperança de uma criança que aguarda a chegada da sua boneca. Eu e a criança estamos guardadas uma para a outra, eu aqui nesse armário, empoeirada e a criança que aguardo, ainda no ventre daquela que já me amou como filha.

 


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Terapia Eficaz

agosto 11, 2011


Brigas com o marido sempre deixaram Ana muito chateada. Ontem mesmo tiveram uma feia, mas hoje ela já está bem. As horas de terapia fizeram efeito.

Logo em seguida à briga, Ana enxugou as lágrimas e vestiu a sua clássica roupa de madame, fez carinho no cachorrinho e foi embora. Chegando ao Shopping ficou em dúvida se seria melhor passar no salão de beleza ou na loja de cosméticos. Decidiu pelos cosméticos. É melhor você pagar um pouco mais caro e poder levar a maquiagem para casa do que pagar caro e ter que deixá-la no salão. Satisfeita com sua decisão escolheu base, corretivo e pó, rímel, sombra, lápis e batom. Só o básico, que ela já tinha, mas não daquela marca. Agora não notariam a sua cara inchada de choro.  A make pedia uma roupa à altura e lá foi Ana em busca do vestido perfeito. Depois do vestido, comprou uma cinta para encolher a barriguinha e o quadril, afinal, precisava entrar no vestido que acabara de comprar. Para completar, foi à sapataria. Não se conteve e comprou três sapatos e uma bolsa de couro, estavam em promoção.  Além disso, trocou o celular, almoçou frutos do mar, e para encerrar escolheu um colar. Pronto, já bastava. Estava vingada, e a conta do brigão, estourada.

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Coragem, garota, coragem

fevereiro 3, 2011

Coragem, afirmou. Suas pernas tremiam e seus pés, descalços e resistentes, davam pequenas passadas para trás.

De longe, esticava um dos braços, no entanto, permanecia longe do motivo de tal comportamento inusual. Já estivera ali tantas outras vezes, mas nunca com tanta relutância. Seu corpo teimoso evitava avançar. Buscava força em seus pensamentos positivos e jargões roubados de livros de auto-ajuda que ocupavam o espaço de sua memória.  Não ajudavam.

Enquanto seu corpo recuava, a hora corria adiante. Precisava alcançá-la.

Conseguiu se aproximar. “Primeiro um pé, até eu me sentir confiante”, pensou, e logo voltou a resistir. Pedir ajuda seria constrangedor, não conhecia os vizinhos.  Travessa imaginou que seria uma excelente desculpa para conhecer o loiro, gato com cara de inteligente do apartamento da frente, mas refutou-se pensando que ele poderia considerá-la muito fresca ou coisa pior, o que seria péssimo para sua imagem.

Em sua batalha interna quase se esqueceu daquela que realmente precisava enfrentar. O relógio, estrategicamente posicionado, acusava o pular dos minutos.  Pensou no planeta, na França, no desperdício, nos seus cremes, naqueles que queria comprar, nos perfumes, no entanto decidiu-se por lutar. Era necessário e a vitória lhe traria confiança caso encontrasse o loiro gato com cara de inteligente no corredor. “Por ele!” gritou, exatamente antes de se atirar em um pulo, seguido de dezenas de outros debaixo daquela cachoeira gelada. O chuveiro havia queimado.

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Chamada Perdida

junho 8, 2010

Entrou no bar, pediu apenas uma água. Colocou o celular sobre o balcão. Olhava-o fixamente após cada gole como se esperasse uma chamada. Ela não chegava. Conferia se não estava no silencioso e olhava para as pessoas a sua volta.

Um homem com um chapéu de palha estava sentado na banqueta a sua esquerda. Calado, virava pequenos copos de tempos em tempos. Duas mulheres, meia idade, cobertas de bijoterias conversavam como adolescentes na mesa central do bar bebericando suas bebidas com azeitonas. Um painel com fotos na parede dos fundos chamou sua atenção. Chegou perto a procura de rostos conhecidos. Amigos queridos estavam alí. Ela estava alí. Ele ao seu lado.

Lembrou-se daquela noite. Bebou mais um gole de sua água. A primeira de muitas noites juntos, oficialmente. Voltou seu olhar para a mesa das mulheres e desejou que estivesse vazia. As risadas vindas de lá a incomodavam. O lugar, aquela branca e ordinária mesa de bar era para ela um santuário, agora profanado. A música que tocava ao fundo era outra. Tudo parecia errado, tudo lembrava aquela foto, no entanto, nada era igual, exceto ela. Ele não estava mais ao seu lado. Seus acentos estavam ocupados e a música que tocava estava baixa e sem graça. Tudo ela queria consertar. Começou pela música, pediu para trocar e aumentar. As mulheres, elas iriam embora, eventualmente. Ele, iria ligar.  Ouvindo a música certa, voltou ao painel. Agora se sentia mais próxima  do momento da foto. O momento do pedido.

Lembrou-se  do semblante nervoso do seu amado. Das mãos suadas sendo esfregadas na calça, sobre o joelho. O olhar perdido do futuro namorado e o pedido desajeitado. Lembrou-se do beijo, a resposta mais que aguardada.

Enquanto isso, do outro lado da rua estava o namorado. Perguntando-se se aguentaria viver separado daquela que foi a sua melhor namorada. Atravessando a rua resolveu ligar. O telefone chamou. Um homem atendeu. Ele ouviu a música que tocava e gargalhadas ao fundo. Achou que ela estava feliz com outro, ouvindo a música que era só dos dois. Sentou-se na calçada em frente ao bar e começou a chorar.

Ele nunca chegou a entrar. Ela, lá dentro, esperou a música acabar e voltou triste para o balcão. O homem ao lado caíra no sono e não havia nenhuma chamada perdida.