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Crime e Castigo

fevereiro 16, 2011

L&PMDurante a sua doença, sonhou que o mundo todo estava condenado a ser vítima de uma terrível, inaudita e nunca vista praga que, originária das profundidades da Ásia, caíra sobre a Europa. Todos teriam que morrer, exceto alguns, muito poucos, escolhidos. Surgiram novas triquinas, seres microscópicos que se introduziam no corpo das pessoas, mas esses parasitas eram espíritos dotados de inteligência e de vontade. As pessoas que eram atacadas por eles tornavam-se imediatamente loucas. Mas nunca, nunca os homens se consideraram tão inteligentes e perseverantes como se consideravam os que eram atacados pela moléstia. Nunca consideraram mais infalíveis os seus dogma, as suas conclusões científicas, as suas convicções e crenças morais. Aldeias inteiras, cidades e povos inteiros foram contagiados e enlouqueceram. Todos estavam alarmados e não se entendiam uns aos outros, todos pensavam ser os únicos senhores da verdade, e só sofriam ao verem a dos outros, e davam socos no peito, choravam e ficavam de braços caídos. Não sabiam a quem nem como julgar, não conseguiam entrar em acordo sobre o que era bom e o que era mau. Não sabiam a quem acusar nem a quem defender. Agrediam-se mutuamente, impelidos por um ódio insensato. Armavam-se contra os outros em exércitos inteiros, mas os exércitos, uma vez em marcha, começavam de repente a destroçarem a si mesmos, as fileiras se desfaziam, os guerreiros se lançavam uns contra os outros, mordiam-se e devoravam-se entre  si. Nas cidades o alarme tocava o dia inteiro, todos eram chamados, mas quem os chamava e para que os chamavam ninguém sabia e todos andavam assustados. Abandonaram os ofícios maus comuns, porque cada um preconizava a sua idéiam os seus métodos, e não conseguiam chegar a um acordo; a agricultura também foi abandonada. Em alguns lugares, homens reuniam-se em grupos, faziam certas combinações e juravam não se zangarem. Mas começavam imediatamente a fazer uma coisa completamente diferente da que tinham acabado de combinar, acusavam-se mutuamente, brigavam e se degolavam. Houve incêndios, fome. Tudo e todos se perderam. E essa tal peste crescia e cada vez avançava mais. Somente alguns homens conseguiram se salvar em todo mundo, homens puros e escolhidos, destinados a dar início a uma nova linguagem humana e a uma nova vida, a renovar e a purificar a terra, mas ninguém via esses seres em parte alguma, ninguém ouvia a sua palavra e a sua voz.

Fragmento de Crime e Castigo, de Dostoiévski (1866)

Alguma relação seria apenas coincidência?

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Coragem, garota, coragem

fevereiro 3, 2011

Coragem, afirmou. Suas pernas tremiam e seus pés, descalços e resistentes, davam pequenas passadas para trás.

De longe, esticava um dos braços, no entanto, permanecia longe do motivo de tal comportamento inusual. Já estivera ali tantas outras vezes, mas nunca com tanta relutância. Seu corpo teimoso evitava avançar. Buscava força em seus pensamentos positivos e jargões roubados de livros de auto-ajuda que ocupavam o espaço de sua memória.  Não ajudavam.

Enquanto seu corpo recuava, a hora corria adiante. Precisava alcançá-la.

Conseguiu se aproximar. “Primeiro um pé, até eu me sentir confiante”, pensou, e logo voltou a resistir. Pedir ajuda seria constrangedor, não conhecia os vizinhos.  Travessa imaginou que seria uma excelente desculpa para conhecer o loiro, gato com cara de inteligente do apartamento da frente, mas refutou-se pensando que ele poderia considerá-la muito fresca ou coisa pior, o que seria péssimo para sua imagem.

Em sua batalha interna quase se esqueceu daquela que realmente precisava enfrentar. O relógio, estrategicamente posicionado, acusava o pular dos minutos.  Pensou no planeta, na França, no desperdício, nos seus cremes, naqueles que queria comprar, nos perfumes, no entanto decidiu-se por lutar. Era necessário e a vitória lhe traria confiança caso encontrasse o loiro gato com cara de inteligente no corredor. “Por ele!” gritou, exatamente antes de se atirar em um pulo, seguido de dezenas de outros debaixo daquela cachoeira gelada. O chuveiro havia queimado.